Guerreiros Imortais: E tudo começou com um Príncipe!

08:14:00


Salve Nação Azul

Maio de 2013.
Na minha João Monlevade acontecia uma fase dos Jogos Escolares do Estado, antigos JIMIs. Enquanto eu, em dia de trabalho e correria, almoçava num restaurante para poder voltar logo ao serviço, muitos chefes e treinadores das cidades que aqui jogavam também estavam por lá. Eis que chega um senhor forte, alegre, acompanhando a delegação da cidade de Pedro Leopoldo. Logo o reconheci: era o maior camisa 10 da história do meu Cruzeiro. O Príncipe Dirceu Lopes Mendes! Nosso Dez de Ouro!

Seria fácil assim?
Ou seria engano, ilusão minha?
Por que só eu o reconhecia?
Por que ninguém o interpelou?
Uma foto?
Um abraço?
Um autógrafo?


Eu, que já estava por terminar a ceia, comentei com alguns do meu lado entre o incrédulo e o assustado que... sequer sabiam de quem se tratava! Pois era fato: ele, craque, Príncipe! Porém pouco conhecido das gerações mais novas. Uma triste realidade num País de memória curta com seus heróis. Um triste retrato em uma nação que super-valoriza glúteos e unhas por fazer, e sequer imagina que aquele grisalho senhor defendeu as cores do Cruzeiro por mais de uma década, atuou por quase 600 jogos e marcou época. Fez história.

Eu, que não sou desses, tenho prosas demais por contar sobre o Dirceuzinho. Garoto de Pedro Leopoldo, ganhou destaque pelo futebol objetivo, para a frente. Estreou já aos 18 anos, em 1964. Foram muitos os gols pelo Cruzeiro, um incontável de dribles desconcertantes e muitos, mas muitos passes finais para os atacantes finalizarem. Como aquela assistência para o gol da Seleção Mineira em Setembro de 1965, primeiro jogo e primeiro tento anotados naquele que seria seu Palácio, o Mineirão.

Achar conteúdo sobre o Dirceu Lopes na internet é fácil: muitos vão falar dos três gols marcados naquela goleada histórica sobre o Santos de Pelé e cia em 1966, na primeira final da Taça Brasil. Ou do segundo dos três gols azuis no emblemático jogo desse mesmo nosso primeiro campeonato brasileiro, em que os paulistas já queriam agendar o terceiro jogo e Dirceu e sua trupe não permitiram.



Mas e se lhe perguntarem o que mais fez Dirceu para merecer tantos louros? O que você diria?

Eu diria que o Príncipe derrubou com seu talento o Peñarol campeão mundial na primeira vez que os gramados mineiros recebiam jogos da Taça Libertadores. Ou diria que em 1967 o Cruzeiro foi para o intervalo de jogo com um atleta a menos, sofrendo com o juiz e com as entradas covardes dos beques atleticanos. E com 3 x 0 de revés. O próprio Príncipe precisou de ser tratado no vestiário, pois recebera entrada criminosa de um zagueiro alvinegro, mas voltou para a batalha e ajudou seus companheiros a resolverem aquela injustiça na bola. Dirceu e companhia voltaram a campo e empataram aquele jogo.

Pouca gente sabe, mas o Cruzeiro foi vice-campeão brasileiro de 1969 pela diferença mínima de um gol a favor de saldo do Palmeiras. No último jogo do quadrangular, um Cruzeiro e Corinthians no Mineirão, Dirceu só não fez chover. O gol da vitória por 2 a 1 foi digno de comédia, tamanha foi a covardia dos intrépidos cruzeirenses. Piazza bateu rápido uma falta para Dirceu, que correu em direção ao gol. Ao fazer que ia chutar e dar um corte seco, para trás, os becões Luiz Carlos e Ditão trombaram e o Príncipe não perdoou o bom goleiro Ado.

A falta de ambição e sua humildade, porém, fizeram com que Dirceu fosse deixado de lado na convocação final para a Copa de 70. No auge de sua forma técnica e física, e homem de confiança de João Saldanha, ele (justiça seja feita, Ademir da Guia também) foi preterido pelo excesso de jogadores para a mesma posição pelo novo técnico Zagallo. Por um lado não é mentira se olharmos para o time que tinha como titulares Gerson, Rivellino, Pelé, Tostão e Jairzinho. Por outro, porém, Zagallo cedeu à pressão do presidente do Brasil e convocou para a Copa o caneludo e pouco aproveitado Dario. Caso Dirceu fosse um pouco mais ousado em sua auto-promoção, talvez teria feito parte daquele escrete que ganhou o mundial de seleções.



Os anos 70 trouxeram uma nova molecada ao Cruzeiro, como Roberto Batata, Eduardo Rabo-de-vaca, Palhinha e Joãozinho. Isso fez com que o espaço do Príncipe fosse aos poucos dando lugar à geração que conquistaria a Libertadores de 76. Não porém sem lhe tirar o encanto. Em 71, por exemplo, o Cruzeiro disputava um torneio na Argentina e em La Bombonera perdia de 3 a 0 para o Vélez no intervalo de jogo. Mas aos 15 minutos do segundo tempo o placar já ostentava 5 a 3 para os mineiros, num show de Dirceu e Zé Carlos. Dirceu ainda faria o sexto gol na vitória maioral do Cruzeiro.

  • A carreira de Dirceu entrou em decadência quando recebeu de um jogador do Atlético de Três Corações uma voadora na região do quadril que lhe causou um deslocamento do osso.
  • Vendido ao Fluminense, rodou depois sem sucesso pelo Flamengo (sequer jogou) e encerrou a carreira no Uberlândia, em 1980.
  • Dirceu Lopes atuou em quase 600 jogos em seus 14 anos de Cruzeiro.
  • Foram mais de 200 gols, 13 títulos oficiais, uma dupla de ataque de respeito eterno no mundo do futebol junto a Tostão e inúmeras histórias que hoje poucos lembram e contam.


Pois bem. Mas e o final do conto da minha foto com ele?

Como eu já havia acabado meu almoço e ele sequer tinha iniciado o seu, fui até à sua mesa, pedi a licença para dar um abraço e tirar uma foto com o cara que foi o princípio de tornar o meu time o gigante que é. Todo mundo ficou olhando, e estão até agora sem entender... Súdito único daquela tarde, agradeci a ele por tudo que fez pelo Maior de Minas. Estendi a ele minhas maiores reverências. E fiz uma pergunta básica:
  • Dirceu, você tem noção da dimensão gigante que o Cruzeiro se tornou, e sabe que tudo começou com você e sua geração?

Simples, humilde, até um pouco acanhado com tamanha veneração, ele disse sorrindo:
Sim, minha geração foi fantástica. Mas o craque não era eu. Eu era um passarinho, solto e livre para bagunçar as defesas. Haviam muitos jogadores melhores que eu!

Um Príncipe Sereno.
Um craque até na hora de se expressar humildemente.
E um fã-vassalo ainda mais embasbacado...


por Rogério Lúcio
Twitter: @rogeriolucio77

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