Cam Newton, a ascensão e a sala de conferência

11:12:00
Em 2015, todos pudemos presenciar um singular evento: a ascensão do MVP (Most Valuable Player) da temporada 2015/2016, quebrando recordes e estipulando a invejável marca de 15 vitórias e uma derrota. Claro, o talento sempre esteve lá - Troféu Heisman, escolha #1 no draft de 2011 e prêmio de Rookie Ofensivo do ano em sua estreia – mas o que se desenrolou durante a temporada regular e os playoffs foi simplesmente surpreendente.

Após a perda de seu principal wide receiver, o SuperCam mostrou enorme desenvolvimento e evolução, mostrando não só superar a significativa perda de sua maior arma ofensiva como ter melhorado exponencialmente suas habilidades como pocket passer e ameaça terrestre, fatores estes que aterrorizaram as defesas adversárias durante todo o calendário.

Mais marrento e habilidoso do que nunca, presenciamos inúmeras vezes a típica dança de comemoração na endzone, seguida pela singela entrega da bola oval às crianças da arquibancada. O “efeito Cam Newton” resultou em 15 vitórias na temporada regular e o prêmio de MVP, além da tão disputada ida ao SuperBowl.
 (Imagem: www.manslife.com)
Entretanto, o jogo mais importante de sua vida teve desfecho diverso do esperado: uma dominante defesa de Denver, liderada por Von Miller, realizou 6 sacks e dois fumbles forçados sobre Cam, fazendo-o provar o que Aaron Rodgers e Tom Brady haviam sofrido, semanas anteriores, alterando o curso de sua vitoriosa temporada.

A enorme pressão exercida pelos pass rushers e a marcação eficiente do resto da defesa apagaram a atuação de Cam, que ficou limitado a 18 passes completados dentre 41 tentativas, e 45 jardas corridas, muito aquém de seu desempenho regular.

Minutos após a fatídica derrota, um irreconhecível Cam Newton antipático e abalado tentou, por dois minutos e meio, responder às perguntas da mídia, saindo da sala de conferência logo em seguida. Algo havia ocorrido terrivelmente errado, e a emoção da temporada surreal conquistada havia se transformado em profunda decepção, tudo isso em quatro quartos. A comparação com o comportamento de Peyton Manning nas entrevistas, após duas derrotas em Super Bowls anteriores, foi inevitável: Cam, apesar de incrivelmente habilidoso, não havia desenvolvido maturidade equivalente com seu talento atlético.

Após a derrota no Super Bowl. (Imagem: www.sportingnews.com)
Posteriormente, o signal caller deu uma declaração se desculpando pelo seu comportamento, justificando-se que um bom perdedor nada mais é do que um perdedor, e que odiava perder. Nada mais natural do que a decepção após uma derrota, em uma arena e em um evento de tal nível. Jogadores notáveis da liga são competidores natos, que desde pequenos são acostumados a levar a competição muito a sério, sendo impulsionados pelo desafio e pela vontade de vencer.

Todavia, o dramático desenrolar dos eventos (na perspectiva de Newton), nos leva a pensar sobre toda a situação e a dinâmica envolvendo a entrada para um jogo de coroação de uma temporada quase perfeita, e a saída para a entrevista do perdedor: dois ambientes extremamente opostos, em um curtíssimo intervalo de tempo - a velocidade da mudança, nesse caso, é cruel.
Velocidade talvez seja a palavra adequada nesse contexto: não apenas a atlética de Cam, em seus vários touchdowns terrestres, mas, principalmente, a velocidade com que subiu do 73º lugar na lista de Top 100 da NFL do ano anterior, para o topo, no ano seguinte. Em curtíssimo espaço de tempo, de jogador mediano com um bom potencial, passou para a elite do esporte: algo não alcançado por muitos, mesmo com décadas de trabalho e esforço.

Impulsionado por um time com talentos crescentes, como o linebacker Luke Kuechly e o cornerback Josh Norman, o quarterback teve ambiente fértil para evoluir e se apresentar em sua melhor forma, inédita e implacável. Cam passou, juntamente com seu time, de possível concorrente ao título a favoritíssimo ao Troféu Lombardi.

A torcida cada vez mais enlouquecida e animada com as performances do time, e a inigualável sensação da vitória, potencializada pela perspectiva quase certa de uma próxima vitória na semana seguinte, foram fatores que alteraram a dinâmica do time, visivelmente diferente da temporada anterior, mostrando não somente uma imagem de força, como de harmonia.
(Imagem: www.cbsnews.com)
Como diz o ditado, quanto maior a altura, maior a queda. Convenhamos que a queda não foi tão alta assim: apesar da derrota, os Panthers ainda figuram como uma potência do esporte, com potencial para repetir a atuação na temporada regular e surpreender nos playoffs. Possivelmente, o fator mais determinante na equação tenha sido a velocidade da subida. E, quanto mais rápida e surreal acontece a ascensão, mais impactante e desastrosa parece a derrota. É o que vimos, claramente, na feição de Cam, na sala de conferências.
O astro de Carolina já havia passado por derrotas, em referida temporada. Uma, apenas, para Atlanta - e bem inesperada, concordemos. Mas nada comparado a isso. Nada comparado à sensação de ter conquistado os céus do football e, repentinamente, ter seu prêmio arrancado de suas mãos. Da temporada marcante à sala de conferência, em pouco mais de três horas.

Em tempos de estudo do Império Romano, que sobreviveu por mais de inacreditáveis mil anos, me deparei com texto de seguinte título: “Por que o Império Romano caiu?” E o subtítulo era ainda mais interessante: “A pergunta certa, talvez, seria por que resistiu tanto?”. Em seu primeiro parágrafo, dizia: é mais fácil chegar ao topo do que se manter no topo. E a História e o esporte não mentem: poucas franquias alcançaram sucessivos êxitos, ano após ano, em uma liga tão competitiva e significativamente balanceada.

Cam Newton e os Panthers alcançaram o topo, apesar do derradeiro anticlímax. Poderiam fazê-lo novamente? Poderia Cam manter o nível e repetir a atuação surpreendente?

Bom, certamente sim, mas tudo isso depende.

Alguns atletas têm a capacidade de encarar a derrota como desafio de ser melhor e de se aperfeiçoar cada vez mais, utilizando-a como combustível para o melhoramento e a sede de vencer, de superar os obstáculos. Como exemplo notável temos os Buffalo Bills dos anos 90 que, apesar de sucessivas derrotas no Super Bowl, estabeleceram o recorde de quatro idas seguidas à final da liga. Mesmo sendo derrotados as quatro vezes na final, sua força tem de ser reconhecida.

Há, entretanto, atletas menos maduros e menos favorecidos, os quais tamanha derrota tem enorme peso, se tornando, ao invés de incentivo para a vitória, um pesado fardo para o resto do caminho.

Newton experimentou uma ascensão meteórica, e uma pesada derrota. O seu retorno e a continuação do seu sucesso permanecem uma incógnita, prestes a ser revelada. Como torcedor de outra franquia e admirador do esporte, afirmo: certos jogadores elevam o nível da liga, e quem ganha com isso, somos nós, os aficionados pela bola oval.

Equipe NFL: Twitter Facebook 

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Curioso convicto e eterno aprendiz, pretende conhecer sobre tudo um pouco - exceto signos.

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