Sem voz e sem gol

23:40:00
Foto: Félix Zucco/Agência RBS
Nessa quinta-feira, senti que provavelmente o nosso hino acabou por nos amaldiçoar. Somos bons torcedores, mas eu vou hesitar em aplaudir o Grêmio e você também devia. É quando os aplausos ecoam mais que as cornetas que o time fica deste jeito. As partidas contra times que não estão muito bem e, especialmente, essa contra o Santa Cruz são as nossas finais de mundiais que não vieram mais, são as nossas finais de Libertadores não conquistadas, são os tropeços que não podemos dar.


Com a sina de aplaudir sempre, cavamos túmulos quando criticamos quem aponta os erros do time ao nosso lado, quando não trazemos para a realidade quem diz "tá bem, tá bom" já no segundo tempo com um placar zerado. Como se escreve o epitáfio de alguém que se contenta com empates? Conquistamos dois pontos em seis que deveriam estar na nossa conta. Fui buscar três na Arena, em casa, com uma torcida fervendo, como posso voltar para casa com apenas um no bolso?

Falando em torcida, os dois milagrosos bandeirões na Geral acusavam a falha do teatro de cultura de estádio montado no morno setor Leste. As várias bandeiras à disposição do torcedor que deviam ajudar a empurrar o time, durante boa parte do jogo, estavam descansadas entre as divisórias. A morte violenta não virá com brilho de Grafite, não haverá um tiro de misericórdia, morreremos lentamente nas Arenas.

Meu dever é criticar o time nesse momento de adversidade, mas nessa noite vi coisas piores na torcida. Chamar a bandeirinha de "vagabunda" não te faz melhor que a pipoca pisoteada no concreto. Há quem desnecessariamente se disponha a argumentar que são coisas do "calor do jogo", mas quando o calor passou, o indivíduo que proferiu tal ofensa continuou seu discurso misógino dizendo que "futebol é coisa de homem, não tinha que ter mulher".
Em outro "calor" a torcida se aventurou a cantar que "o Falcão é gay", o que não chega a ser o menor dos problemas dos gremistas porque não é um problema (e se ele realmente fosse homossexual, não seria problema para ninguém). O preconceito nos estádios provoca uma tristeza tão profunda, que nenhuma canção de nenhuma torcida pode soar mais alto do que o silêncio de quem consente com a discriminação.


Ainda sobre o jogo, se algum dia te disserem para ligar para Henrique Almeida em caso de emergência, saiba que ele vai te deixar na mão, você vai se dar mal. O Grêmio teve urgências na linha ofensiva e Almeida só deu mais decepções. A propósito, em uma entrevista depois do jogo, Roger declarou que "[...] Vaias que começaram aos 20 minutos, talvez o torcedor tenha vindo condicionado a achar que estaria 3 a 0". Francamente, deveríamos esperar menos do que isso? O torcedor está rouco, quase sem voz, e não é de tanto gritar gol. As expectativas? Ser campeão. Taça na mão. A realidade? Depender do resultado de jogos de outros times pra não ver a coisa toda se desfazer no ar. Por favor Grêmio, de novo não, não decepcione mais.

por Clarice Sena

Equipe Grêmio: Twitter

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