A frieza de um kicker

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A maioria de nós já passou por algum tipo de estresse esportivo em algum momento crucial: aquele jogo importante no interclasses, no colégio; aquela final contra aquele curso comumente odiado, no intercursos; ou, até alguma competição mais séria, para alguns atletas de hobby – e os que passaram por isso lembram o quão difícil pode ser jogar bem, diante da pressão.
Agora imagine que você joga na maior liga do esporte, em uma franquia com o estádio lotado de torcedores, e que o seu trabalho se resume a entrar em campo somente em horas pontuais - e, frequentemente, decisivas - para, em um rápido movimento das pernas, realizar um chute dentro do conhecido Y quadrado, e que, enquanto a torcida adversária tenta, de todas as maneiras, naturais e sobrenaturais, fazer com que você erre, a sua torcida espera, exigentemente, que você o acerte, na grande maioria das vezes. E que a sua permanência nessa função depende diretamente da sua eficácia.
É, meus caros, a vida de um kicker não é nada fácil.
(Cairo Santos, notável brasileiro, kicker do Kansas City Chiefs. imagem: extratime.uol.com.br)
Diferentes posições valorizam principalmente diferentes atributos: cornerbacks necessitam ser rápidos; jogadores da OL, robustos; quarterbacks, precisos. Mas, e kickers? Estes, além da exigida precisão, têm de possuir avantajada capacidade mental. Não necessariamente inteligência ou perspicácia, mas sim frieza. E a frieza não é algo que se aprenda ou se adquira facilmente.
Frieza para entrar em campo em momentos decisivos, após estar na sideline durante boa parte do tempo, acompanhando seus companheiros jogarem. De uma hora para outra, a responsabilidade da vitória de um jogo, ou até um campeonato, passa para este injustiçado jogador. Field goals ou extra points convertidos fazem parte da obrigação da posição, enquanto que, qualquer chute errado, no final do último quarto, em momento mais do que crucial, revela um lado cruel deste trabalho: a tolerância e o reconhecimento dado aos kickers, normalmente, são inapropriados e injustos.
Exemplo recente é o de Stephen Gostkowski. Consagrado em New England, detentor de invejável recorde de field goals e extra points convertidos, tem o seu único erro de extra point em 9 anos, justamente na partida de final de conferência contra os Broncos. O ponto que faltava para completar os 7 resultantes de um touchdown, antes tido como certo, gera um desequilíbrio no placar, levando os Patriots a arriscarem uma conversão de dois pontos, muito mais difícil de ser convertida, contra uma defesa como a de Denver, resultando na eliminação. Mesmo com o surpreendente currículo de quase 100% de acertos em extra points, um único erro marca. A carreira de Gostkowski não está nem perto de ameaçada em New England - mas que o torcedor patriota se lembra da cena da bola oval passando por fora do Y, certamente se lembra.

(Infame extra point de Gostkowski, na final da AFC. Imagem: sbnation.com)
Frieza para entrar em campo, mais uma, duas ou várias outras vezes, para fazer o seu trabalho, mesmo logo após um chute fracassado. E é aí que é necessária a capacidade mental do jogador. Para a grande maioria de nós, um erro é causa de estresse, nervosismo e, consequentemente, queda de desempenho. A capacidade de superar as adversidades e o próprio medo de falhar são importantíssimas no esporte de alto nível, e são postas à prova, especialmente, após uma falha do jogador. A moral é abalada, e a antes confiança, integrante do êxtase presente no começo do jogo, dá lugar a uma crescente dúvida que consome o atleta por dentro: errar não é uma opção. Errar duas vezes, então, nem se fale.
Frieza para colocar de lado todas as falhas que já tenham acontecido anteriormente; todo o receio de ser substituído por outro talento, no elenco; a ameaça de ser culpado pela derrota de seu time; e focar apenas no que tem se dedicado, durante toda a sua vida atlética, até este momento: acertar o chute e marcar os pontos. Essa ‘memória curta’ é algo essencial para a posição, deixando o atleta confortável para continuar desempenhando (bem) sua função, seguidamente, mesmo após inevitáveis erros que surjam.
O sucesso não é algo instantâneo ou algo momentâneo. O sucesso tem a ver com constância. Como exemplo, talvez o maior kicker em atividade, Adam Vinatieri, já teve diversos erros em sua carreira. Entretanto, a determinação e a capacidade de superar adversidades - leia-se, principalmente, as eventuais próprias falhas - permitiram que se tornasse um dos melhores que já jogaram na posição, na história do futebol americano. Falhas ocorrem, mas não se pode deixar que se tornem frequentes, nem crescentes sementes de desconfiança. E isso, só quem pode resolver, é o próprio atleta.

(Adam Vinatieri em ação pelos Colts. Imagem: usatoday.com)

Numa das posições onde mais se fica de fora da dinâmica do jogo, e que, quando se entra, mais se encontra em situações decisivas, a cobrança é cruel. Ou se consegue os pontos, ou não se consegue - e eles farão falta, no final do jogo. No melhor estilo narração brasileira, o bordão “kicker também é gente” se mostra mais verdadeiro do que nunca, e não apenas gente normal, mas gente especialmente privilegiada.

Texto por: Lucas W. Piai
Equipe NFL: Twitter | Facebook 

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Curioso convicto e eterno aprendiz, pretende conhecer sobre tudo um pouco - exceto signos.

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