São Paulo: "Projeto Tóquio" começou antes de Telê

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Trajetória da bola na falta de Raí contra o Barcelona na decisão do Mundial de 92 Fonte: Imortais do Futebol.com

Para todo são-paulino, os dias 12 e 13 de dezembro, assim como o dia 18, claro, são especiais, por conta da conquista dos mundiais de clubes, mas por conta do longo distanciamento entre o segundo e o terceiro campeonatos - diferença de 12 anos - e por conta disso, a abordagem irá se restringir a 1993.

Esclarecendo o título, Tóquio era a sede fixa do Mundial Interclubes desde 1980 e os clubes brasileiros apelidaram a missão de chegar ao título mundial como "Projeto Tóquio", mas a ambição são-paulina começou bem antes da chegada de Telê Santana, mais precisamente no ano de 1987, 5 anos antes da primeira conquista.
São Paulo bicampeão mundial de 1993: Fonte SPFCPedia - site oficial

Era comum nos anos 70 e 80, o Campeonato Brasileiro começar no primeiro semestre de um ano e terminar no ano seguinte e isso ocorreu no ano de 1986, que teve a final disputada somente em 1987. São Paulo e Guarani brigavam pelo segundo título e o time do técnico Pepe, que como jogador brilhou no Santos de Pelé, foi campeão nos pênaltis e Careca artilheiro do campeonato com 25 gols e pasmem, tricolores: Carlos Miguel Aidar era o presidente do clube e Juvenal Juvêncio o diretor de futebol daquele timaço que tinha além de Careca, Falcão "Rei de Roma" (que aposentou no clube), Gilmar Rinaldi, Silas, Müller, entre outros.

Contratou Raí, meia do Botafogo-SP - na época o jogador era mais conhecido por ser "o irmão do Sócrates" por causa do parentesco com o ex-meia corintiano - repatriou Müller, ex-ídolo do clube que estava no Torino-ITA, assim como outros jogadores, contratou o goleiro Zetti dispensado do rival Palmeiras em 1990 após ter quebrado a perna, até que finalmente trouxe o técnico Telê Santana. Se no Paulista o time não tinha o que reclamar antes de Telê - foi campeão em 85, novamente em 87 e 89, embora tenha ficado em 6º em 86, 3º em 88 e ficado na repescagem em 90 e terminado em 15º lugar -. 
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São Paulo comemorando o título mundial de 93 no fim da partida Fonte: site oficial

No Brasileiro, em 1987 após a venda de Careca para o Napoli-ITA, chegou à 2ª fase e ficou em 6º lugar, em 1988 vendeu Müller para o Torino e ficou em 11º, sendo vice-campeão em 1989 para o Vasco e 1990 para o rival Corinthians, que conseguiu o título inédito dentro do Morumbi, mas o vice-campeonato tricolor já contava com Telê Santana como técnico. 

São Paulo campeão mundial de 1992 Foto: SPFCPedia - site oficial


Já na Copa do Brasil, que foi criada em 1989, o clube não disputou naquele ano, ficou em 6º lugar em 1990 e no ano seguinte, eliminado para o futuro campeão Criciúma (responsável também pelo fim do sonho do título tricolor na Copa do Brasil em 1990) - que era comandado por Felipão e em 1992, o time seria nosso rival na primeira fase da Libertadores mais difícil, mas já sob o comando de Levir Culpi no time catarinense -.

Claro que nesse caminho o clube foi vergonhosamente eliminado na primeira fase da Libertadores-87 (algo que também tinha ocorrido em 78), não conseguiu vaga de 1988 até 91, ou seja, o "Projeto Tóquio" foi ganhando corpo diante de sucessivos reveses. Depois de um excelente ano de 1991, o time tricolor foi campeão paulista e brasileiro e após tanto tempo de ausência, disputar a Libertadores era uma realidade e quem mudou a mentalidade tricolor foi justamente Telê, que não admitia que o clube, com toda a grandeza que possui, "entrar para fazer boa campanha" sem pensar em título, valendo ressaltar que o time já tinha sido vice-campeão em 74.

Ganhou a Libertadores-92 nos pênaltis com direito a mais de 100.000 tricolores invadindo o Morumbi - hoje isso parece fantasia, porque o estádio não comporta nem 70 mil pessoas, triste realidade - disputou os Torneios Ramon de Carranza, amistosos que valem taça, tipo a Florida Cup - com direito a goleada sobre o Barcelona por 4x1 - e Teresa Herrera, ambos na Espanha, antes do Mundial (que na época era final direta com o vencedor da Liga dos Campeões, sem pegar outros times, em um jogo só), terminou em 5º lugar no Brasileiro daquele ano, disputou as finais do Paulista contra o Palmeiras entre a viagem para enfrentar o Barcelona e venceu o primeiro jogo por 4x2 e viajou para o Japão.

O Barcelona, como se sabe e vale até hoje, compunha boa parte da seleção espanhola, como o goleiro Zubizarreta, Ferrer, Guardiola (sim, o técnico do City estava nesse time) e comandado pelo técnico Johan Cruyff, infelizmente já falecido, mas mesmo com a goleada de 4x1 sofrida em agosto, o técnico do time barcelonista soltou a pérola: "Ninguém do lado de lá merece marcação especial".

Claro que essa frase chegou aos ouvidos de Telê Santana e dos jogadores são-paulinos, que queriam mostrar que aquela goleada não foi "acidente de percurso" e enfim deixar de ser subestimados pelos europeus e imprensa mundial, afinal, um time brasileiro não era campeão mundial desde o Grêmio em 1983. 

O jogo começou e logo aos 12 minutos, o búlgaro Stoichkov fez 1x0 Barcelona calando os são-paulinos naquela madrugada de 13 de dezembro, mas o time tricolor não se abateu, tomou controle do jogo e empatou com gol de peito de Raí numa jogada magistral de Müller aos 27 minutos do primeiro tempo: ir para o intervalo sem estar perdendo era fundamental para diminuir a pressão do São Paulo poder tentar a virada e o título inédito e no segundo tempo, o time tricolor dominou o jogo, sofreu falta na entrada da área e veio a dúvida sobre quem iria bater: Raí que raramente cobrava, pegou a bola, bateu no ângulo, fazendo um GOLAÇO aos 34 minutos: o São Paulo virou o jogo e se tornou CAMPEÃO MUNDIAL.  Pela primeira vez, o Estádio Nacional de Tóquio, com 60.000 pessoas era totalmente invadido, mas claro que dessa vez o motivo valia a pena, afinal, era a festa do título são-paulino.

Toda a festa para o time tricolor, o camisa 10 foi eleito melhor jogador, ganhou o carro e vendeu dando o dinheiro para todos no clube e mesmo campeão mundial o ano não tinha acabado: faltava voltar a São Paulo para disputar o jogo de volta do Paulista e nova vitória tricolor, desta vez por 2x1. São Paulo campeão paulista, da Libertadores e mundial - Telê Santana estava mais que consagrado e o assunto sobre as não conquistas das Copas do Mundo de 1982 e 86 - até hoje o único técnico a comandar a seleção brasileira em duas copas seguidas - definitivamente encerrado.

Em 1993, o São Paulo terminou na primeira fase no ressuscitado Torneio Rio-São Paulo (que de 1971-92 não foi disputado), ficou em terceiro no Paulista - vale ressaltar que Raí foi vendido ao PSG-FRA no meio do campeonato, após uma goleada de 6x1 sobre o Santos -, mas foi bicampeão da Libertadores com direito à goleada por 5x1 sobre a Universidad Católica-CHI (até hoje a maior goleada numa final de Libertadores), a Supercopa dos Campeões da Libertadores - torneio que reunia a "nata" do futebol sul-americano, onde precisava ser campeão da Libertadores para entrar e o time tricolor ganhou do Flamengo na final -, a Recopa, vencida diante do Cruzeiro, reunia os campeões da Libertadores e da Supercopa da Libertadores do ano anterior, semifinalista do Brasileiro, mas ainda faltava o mundial e a chance de se igualar ao todo-poderoso time de Pelé dos anos 60.


Em 12 de dezembro, o São Paulo enfrentou o Milan-ITA, mas o que poucos lembram ou sabem é o que o rival deveria ser outro: o campeão da Liga dos Campeões foi o Olympique de Marseille-FRA, mas o presidente do clube francês, Bernard Tapie, foi preso por suborno e o clube desclassificado: o time italiano, que tinha ficado com o vice-campeonato "ganhou de bandeja" a chance de ser campeão mundial. 

Novamente o time tricolor chegou desacreditado, mesmo sendo já sendo bicampeão da Libertadores, tendo derrotado o Barcelona duas vezes no ano anterior, mesmo assim, não era suficiente, afinal, como o São Paulo não era time europeu e não disputava a Liga dos Campeões da Europa, para eles não era e nunca foi time grande por mais respeito que tivessem a Telê Santana - afinal, a Copa-82 mesmo sem ter sido vencida pelo Brasil, produziu a seleção brasileira que jogou futebol mais bonito até hoje e isso valorizam muito mais lá fora que aqui no Brasil -. 

O Milan compunha boa parte da seleção italiana como o goleiro Rossi, os zagueiros Baresi e Massaro, o incansável Maldini, o técnico Fabio Capello e o São Paulo contava com o jovem Juninho (depois Juninho Paulista quando passou pelo Vasco) e o experiente volante e homem de confiança de Telê Toninho Cerezo, já beirando os 40 anos, que acabou sendo destaque daquele Mundial, agora mais experiente o São Paulo logo aos 19 minutos do primeiro tempo saiu na frente com Palhinha - artilheiro da Libertadores-92, com sete gols - e no começo do segundo tempo, Massaro empatou e aos 14 minutos, Cerezo fez 2x1 São Paulo, mas quando parecia tudo resolvido na partida, o francês Papin "deu mais emoção" empatando novamente aos 35 minutos e com o jogo parecendo ir para os pênaltis, o gol do título foi algo totalmente inexplicável: aos 41 minutos, Cerezo lançou Müller nas costas de Baresi e o camisa 7 tricolor para evitar o choque com o goleiro Rossi virou de costas, a bola pegou no goleiro, voltou no calcanhar de Müller, totalmente sem querer, entrou mansamente no gol e claro, deu tempo do brasileiro gastar seu italiano dos tempos de Torino com o zagueiro Costacurta com a célebre frase: "Questo gol é per te buffone" ("Este gol é para você, palhaço", em português).

O jogo acabou: SÃO PAULO BICAMPEÃO MUNDIAL. Feito igualado ao Santos de Pelé (que era comandado pelo técnico Lula), 30 anos antes em 1962-63 e o mundo que antes questionava o São Paulo, desdenhava, agora não poderia mais ignorar: os gigantes europeus sucumbiram diante do poderio tricolor e era o São Paulo quem mandava, poderia vir quem quisesse, que saudade não só do Mestre Telê, mas desse time vencedor que não tinha rivais, nem aqui e nem fora.

Escalações dos jogos contra Barcelona e Milan: 

13.12.1992
Tokyo (Japão)
Estádio Nacional de Tóquio
Fútbol Club BARCELONA 1 X 2 SÃO PAULO Futebol Clube
FCB: Zubizarreta; Ferrer, Ronald Koeman, Guardiola e Eusébio; Bakero (Goicoechea, 6'/2), Amor, Stoichkov e Michael Laudrup; Richard Witschge e Beguiristain (Nadal, 34'/2). Técnico: Johan Cruyff.
Gol: Stoichkov, 12'/1.

SPFC: Zetti; Vítor, Adílson, Ronaldão e Ronaldo Luís; Pintado, Toninho Cerezo (Dinho, 38'/2), Raí (capitão) e Cafu; Palhinha e Müller. Técnico: Telê Santana.
Gols: Raí, 27'/1; Raí, 34'/2.

Árbitro: Juan Carlos Loustau (Argentina)
Assistente 1: Park Hae Yong (Coréia do Sul)
Assistente 2: Shinichiro Obata (Japão)
Renda: US$ 2.500.000,00
Público: 60.000 pagantes

12.12.1993
Tokyo (Japão)
Estádio Nacional de Tóquio
Associazione Calcio MILAN 2 X 3 SÃO PAULO Futebol Clube

ACM: Rossi; Panucci, Baresi, Costacurta e Maldini; Albertini (Orlando, 34'/2), Desailly e Donadoni; Massaro, Papin e Raducioiu (Tassotti, 34'/2). Técnico: Fabio Capello.
Gols: Massaro, 3'/2; Papin, 35'/2

SPFC: Zetti; Cafu, Válber, Ronaldão (capitão) e André Luiz; Doriva, Dinho, Toninho Cerezo e Leonardo; Palhinha (Juninho, 19'/2) e Müller. Técnico: Telê Santana.
Gols: Palhinha, 19'/1; Toninho Cerezo, 14'/2; Müller, 41'/2

Árbitro: Joël Quinou (França)
Assistente 1: Park Hae Yong (Coréia do Sul)
Assistente 2: Yamaguchi Morihisa (Japão)
Público: 52.275 pagantes


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Bacharel em Direito, acompanha futebol desde sempre e dá seus pitacos quando é e quando não é chamado. Ama o S.P.F.C. incondicionalmente e despreza os rivais, a menos que estejam em boa fase, nesse caso, os odeia.

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