Fórmula 1
O que une Schumacher e Verstappen
A história brasileira na Fórmula 1 é belíssima: temos oito títulos mundiais e três campeões. Pela intensa rivalidade e o peso que representam para a categoria, Nelson Piquet e Ayrton Senna são mais reverenciados – com destaque para o último. O brasileiro, mal-acostumado a tantas vitórias, acreditou que o seu país era o centro do automobilismo, que o nosso asfalto era abençoando e que os outros só vencem na base da trapaça.
Estou exagerando? Talvez. Mas o pachequismo verde e amarelo quando o assunto é F1 beira ao delírio completo. E como não poderia deixar de ser, o fã brasileiro elegeu inimigos da nação na categoria. Alain Prost talvez tenha sido o maior dele, e ainda que ele não fosse o demônio pintado por aqui, deu fortes motivos para tal.
Atualmente, dois pilotos ocupam tal posto inglório: Michael Schumacher e Max Verstappen. Sou muito suspeito para falar de ambos, pois a minha simpatia pelos dois é confessa. Mas é visível como o heptacampeão e o atual campeão são esculhambados em solo tupiniquim – até mesmo de quem se espera sobriedade e desapego aos estereótipos inverídicos.
Schumacher dispensa apresentações. É, na minha humilde visão, o maior de todos os tempos. Ganhar dois títulos com a mediana Benetton e outros cinco com a Ferrari depois de anos no purgatório tifosi tentando reconstruí-la não é para qualquer um. Ao contrário até mesmo das lendas da F1, ele conseguiu andar no auge por bastante tempo e assim foi até o fim – desconsidero a volta em 2010 por motivos óbvios. Você pode puxar no currículo do alemão inúmeras performances e corridas marcantes, daquelas para lembrar o quão talentoso ele era. Para mim, é o maior de todos.
O mundo inteiro reconhece a genialidade de Schumacher. Mas os fãs tupiniquins insistem em arrumar as piores desculpas para não fazer o mesmo. Ele foi campeão com a Benetton em 1994? Ganhou trapaceando. Fez o mesmo em 1995? Tinha o melhor carro disparado. Conquistou cinco títulos com a Ferrari? Tinha Rubinho para tirar o pé e correu contra ninguém. Nunca, jamais, em hipótese alguma Schumacher ganhou seus sete títulos mundiais por ser bom o bastante e ter talento maior que os demais. O arsenal de bobagens para desqualificá-lo é infinito.
É claro que tais alegações são mentirosas e não merecem maiores comentários. Schumacher ganhou fama de arrogante e sujo aqui no Brasil por ter conquistado tudo aquilo que teria sido reservado para Senna, além, é claro, de massacrar Rubens Barrichello na pista nos tempos de Ferrari. Aí é demais para os pachequistas. Na cabeça deles, Schumacher era sempre o vilão de gibi cujo métier era humilhar nossos compatriotas. É ridículo.
No caso de Verstappen, a coisa é pior ainda. Ele nunca dividiu uma equipe com algum brasileiro, tampouco rivalizou com um tupiniquim por vitórias ou títulos. Mas o público no Brasil escolheu o mais novo esporte nacional: odiar Max Verstappen. Uma amostra disso foi dada em Interlagos ano passado, quando uma sonora vaia tomou conta das arquibancadas quando o futuro campeão subiu ao pódio.
Verstappen é um piloto muito jovem, chegou em uma equipe de ponta e mostrou potencial para estar onde está. Aguentou os anos hegemônicos da Mercedes e de Lewis Hamilton por saber que uma hora seria a sua vez. Em 2021, o momento chegou. Talentoso, arrojado, agressivo e com uma gana incrível por vitórias. Esse é Max Verstappen. O futuro parece nos reservar capítulos ainda mais vistosos protagonizados por ele, pois o bicampeonato é quase certo e a Red Bull dificilmente errará a mão no seu carro para as próximas temporadas.
Mas os fãs brasileiros – ou a maioria deles – pegaram o rapaz para Cristo. Tacham ele de arrogante, mimado e qualquer adjetivo que sirva para demonizá-lo. Gente, isso é corrida de carro. Piloto que quer ser campeão ter de lidar com uma pressão inimaginável. Além, é claro, da quase obrigação de não vender barato uma posição, uma vitória ou um pódio. É isso que Verstappen faz: compete com vontade. Se vocês não gostam de piloto agressivo, risquem o nome de Ayrton Senna do panteão de deuses nacionais. Senna tinha uma guiada agressiva e não desperdiçava qualquer brecha para ultrapassar. Verstappen faz a mesma coisa.
O ódio pachequista para com Schumacher e Verstappen é baseado em percepções e sentimentos toscos, sem qualquer amparo na realidade. Abra qualquer vídeo no YouTube das corridas do heptacampeão e note a quantidade de bobagens que os haters brasileiros falam dele. Faça a mesma coisa com o atual campeão e perceba como a coisa não muda.
No fim, o esporte também serve para a externalização das frustrações pessoais. Todos nós sabemos como funciona. Mas já está chato. Michael Schumacher e Max Verstappen não merecem isso. No caso do primeiro, nem a sua saúde debilitada é considerada. É uma tragicomédia inacreditável.
